NOSSOS DIAS – ARTES, LETRAS E FACTOS: ATUAÇÃO ALAGOINHENSE EM MEADOS DO SÉCULO XX

 

Vera Lúcia de A. Santos - UNEB/CAMPUS II

 

 

Publicações em jornais e revistas sempre constituíram-se em algumas das formas mais eficazes de informações, sobretudo nos anos em que a televisão ainda era uma máquina desconhecida e inatingível. Assim sendo, nos ambientamos em Alagoinhas-Bahia, mais precisamente no ano de 1935, e nos voltamos para o jornal Nossos Dias – Artes, Letras e Factos, vasto informativo que faz jus ao título e subtítulo, pois é um meio de comunicação contagiado de informações e novidades que efervesciam o contexto e leitores da época. Este periódico, constituído de onze páginas, tem como diretor Gilberto Guimarães.

Nossos Diasnão economiza palavras ao relatar e discutir fatos onde a construção da identidade cultural está em jogo numa (re)leitura contemporânea- vale a pena informar que, nas transcrições, obedeço ortografia da época. Um exemplo desses inúmeros fatos- e que procurarei trazer à tona se bem que rapidamente- é a festa carnavalesca que está em destaque na primeira página do jornal. Era uma época em que o trio elétrico ainda era desconhecido para os foliões. Nossos Diasenfatiza a euforia dos foliões mesmo não acompanhado de iluminados trios, mas apenas com instrumentos de sopro tocando as marchinhas, porém com o mesmo entusiasmo e enfernizando toda a “galera” com a mesma força do famoso “Chiclete com Banana” e outros trios dos dias atuais. Um dado comprovado da força desses instrumentos é que, inicialmente, os primeiros trios elétricos os usaram para puxar os foliões vestidos de mortalhas e sem o “privilégio” da presença das cordas. As descrições deste periódico de início do século retratam um clima constante de euforia durante os festejos momescos. Podemos destacar um trecho ilustrando e provando que o entusiasmo da época não era diferente da atualidade:

 

O estrondo da batucada – O grito dos clarins e dos trombones enchendo a cidade- O toxico eletrizante do prazer do bojo das cuícas,- Os pandeiros e os tamboris bolindo com os nossos nervos- O alarido das canções populares- A alma ingenua da gente humilde espancando as tristezas- Os carros cheios.

 

Nessa citação observamos que os instrumentos não eram diferentes dos que hoje ouvimos tocar nas várias bandas existentes. Só que, devido a tecnologia avançada esses instrumentos ganharam força, mas a sensação causada nas pessoas da época e nas do ano 2000 não é diferente. Neste momento de explosão de alegria não existe, aparentemente, distinção de classe social, neste momento que é o mais eclético e plural dentre as várias expressões de um povo. É nessa hora que todas as nações se unem em alegria, se bem que os espaços estejam devidamente demarcados: aqui são todos iguais, tanto no início do século como no que ora finda, consideradas as diferenças- é perceptível a diferença na igualdade. A este respeito, Isaura Queiroz (apud Goli GUERREIRO. “Um mapa em preto e branco da música na Bahia: territorialização e mestiçagem no meio musical de Salvador” 1998, p. 43) afirma que a estrutura social hieraquirzada permanece durante o carnaval, ao invés de diluir diferenças sociais, econômicas e étnicas historicamente presentes. Ainda nessa matéria Nossos Dias desafia, talvez, os psicólogos: Quem quiser observar a humanidade deixe esse teste para os três dias de carnaval. Esse parágrafo torna-se muito importante, pois enfatiza a posição do homem e da mulher no interior da sociedade. Muitos destes passam o ano inteiro reprimindo seus desejos e alegrias, ou seja, a sua verdadeira personalidade, “colocando para fora” todas essas sensações nos dias de carnaval. Eis uma questão da construção de cada indivíduo, considerando-se sua classe social, pois existe uma frase muito famosa que diz: “no carnaval ninguém é de ninguém”. Partindo desse pressuposto muitos aproveitam para deixar falar as vontades embutidas e reprimidas talvez pelas convenções sociais. Observemos as palavras usadas pelo autor do texto para descrever a manchete deste momento tão esperado: estrondo, grito, tóxico, electrizante, prazer, bolindo, nervos, alarido, carros cheios, em contraponto com alma, gente humilde, tristezas. Interessante é o conceito dado pelo texto a Momo:

 

Momo é um pândego! Momo é um farrista!

E como o homem, no dizer de Rabelais, é o único animal que ri, Momo é o único deus de Mithologia Grega que conseguiu chegar até nós.

...

Os homens teem passado e passarão todos, porém Momo permanecerá como o grande dominador da humanidade.

 

 A segunda página do jornal é dedicada apenas a marca automobilística Ford que era a grande sensação de 1935, segundo artigos publicados. Trata-se de um anúncio sobre a chegada da Ford na cidade de Alagoinhas. Segundo essa matéria o carro estava fazendo o maior sucesso na cidade do Rio de Janeiro e em São Paulo, vindo despertar, lógico, a curiosidade entre os automobilistas do município, pois tratava-se de um carro com repercussão até nos Estados Unidos. Sempre imitamos o Outro no que se refere, principalmente, aos avanços em quaisquer áreas. Em 1935, que carregava ainda uma raiz muito presente e baseada na cultura do Outro como modelo padrão, a ênfase no Rio de Janeiro, São Paulo e Estados Unidos tinha a intenção de provocar interesse e uma compulsão nos consumidores alagoinhenses para comprar o carro. Uma frase resultante de uma eficiente construção cultural se encontra embutida na matéria, situando a mulher como alvo para comprar a mercadoria: É um carro que fará as mulheres se deterem na rua, como quem aprecia um vestido bonito. Trata-se de uma propaganda feita para o sonho daqueles detentores de alto poder aquisitivo. Alem disso generaliza o imaginário que as mulheres não podem ver um homem dentro de um carro, e mais: não vivem sem carros. Podemos pensar, também, em contrapartida: os homens sonham com carros do ano, mas este pensamento não o desqualifica perante a sociedade. Assim sendo, a mulher vê-se na condição de fútil e consumista compulsiva, insinuando que quando está observando algo, mesmo que seja de muito valor, não passa de um vestido bonito numa demonstração de ausência de sentido crítico. Contudo não podemos esquecer que aí está a voz masculina, que foi construída para classificar a mulher como submissa e vazia- as mulheres possuem as “cabeças vazias”- pois o pensamento, a racionalidade, é atributo do homem. E segue a matéria “rasgando seda” para a Ford, explicando aos leitores o que viria a ser “Marcha- com-apoio-central”. E explica: É o resultado de uma deslocação do motor mais para frente e de uma distribuição igual de peso sobre os dois eixos.Trata-se de uma definição, explicando que com tal acessório o carro ficaria mais espaçoso e confortável para o bem-estar dos passageiros. Porém, essa deslocação torna-se desentendida para os que não são profissionais do ramo. Mas, como se tratava de uma novidade, mesmo para os entendidos parecia ser algo extraordinário, afinal tratava-se de um carro com repercussão internacional.

As páginas de Nossos Dias por ser um jornal com mil e uma utilidades – estão repletas de informações locais, pois era através deste e de outros periódicos como O Popular e O Alarma que os leitores se mantinham informados – aquele é objeto de pesquisa de Elizete Candeias Leal e este o é de Ivaneide Gomes da Silva, ambas pesquisadoras do Projeto Histórico-Cultural: História Literária Alagoinhense até os anos 80.

A página de número três nos descreve um minúsculo relato sobre as matrículas municipais, onde Nossos Dias elogia o desenvolvimento da Fiscalização Municipal, no sentido de que as classes menos privilegiadas fossem matriculados segundo o “acto número 09 do Prefeito Municipal”. Nessa época já podemos observar a existência das dificuldades no campo educacional. E, desde já, as possíveis “preocupações” políticas; mas, a preocupação mesmo seria apenas em atender as exigências legais: matricular o maior número possível de alunos, mesmo existindo as limitações, inclusive na quantidade de salas de aulas. Sabemos que o problema da educação vem sendo objeto de discussão desde o período colonial e que está cada dia mais sendo revisto, haja vista as desistências e obstáculos ao ingresso e permanência das minorias nas escolas. Segundo Stuart Hall, no texto “Identidade Cultural e Diáspora”, (Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) As identidades culturais provém de alguma parte, têm histórias. E nós sabemos uma parte da história da educação brasileira, como começou e os rumos seguidos. Chegamos, então, e cada vez mais, à conclusão de que passam os anos, mudam-se as metodologias, porém os interesses com relação a educação continuam os mesmos. O jornal não evidencia claramente tais fatos, pois estamos nos dirigindo a uma época ainda meio fechada às críticas políticas, onde os meios de comunicação nem sempre expressavam, por questões várias, suas opiniões críticas a respeito dos poderes políticos. Algum anônimo ainda se atrevia a escrever pois não corria o risco de ser identificado. E foi justamente o que a página de número quatro trouxe estampada: uma matéria retratando o poder e a incompetência política. O autor anônimo (texto editorial) inicia o artigo com uma ironia relacionada ao leitor:

 

Leitor amigo, aqui estou, segundo o prometido.

Teria sido objeto de qualquer atenção a minha promessa anterior?

Pouco importa a mim se não fosse.

 

Assim observamos que o autor costumava escrever para Nossos Dias visando denunciar a hipocrisia, a falta de sinceridade e outros adjetivos atingindo diretamente aos ilustres políticos.

 

Não é sem razão, a sentença popular: no Brasil há muita crise de sinceridade e dahi a minha ilusão de agradando ou desagradando esforçar-me por ser sincero, quando disse: vou adiante.

 

Aqui o anônimo ainda se refere ao leitor de forma irônica, já que o jornal era de interesse de muitos, principalmente aqueles que são alvos das críticas expostas nas matérias. E o autor critica de forma muito bem elaborada o capitalismo estrangeiro no qual o Brasil se encontra de pés e mãos atados. Observe-se um parágrafo onde o autor realiza tal crítica:

 

O Nosso querido Brasil tem tantas riquezas inexploradas e são tão fantasticas as suas possibilidades economicas que, se anuncia a vinda de missão comercial japoneza atè nós, para franquear ao Governo o estudo de um pequeno emprestimo de 100 milhões de dolares ou sejam um milhão e 500 mil contos de reis, pagaveis dentro de 16 anos, destinados á expansão de varios serviços e melhoramentos, nos ramos da viação e da industria.

 

O crítico anônimo discute algo que é um grave problema dessa identidade cultural brasileira: a falta de competência ou de interesse políticos que não sabem lidar com as finanças do Brasil, nos conduzindo diretamente para as mãos do capital estrangeiro. Os motivos são consequências de um processo de colonização baseado também nos interesses dos colonizadores. Com isto não estou querendo dizer que um assunto tão polêmico possa ser encarado como algo hereditário ao longo dessa construção de 500 Anos de História Oficial do Brasil. Seguindo o texto o autor continua com as suas denúncias, completando com a voracidade da falta de equilíbrio financeiro em que o país se encontra:

 

E coincide, justamente, tão vultuoso oferecimento, quando se encontra na Europa, um enviado especial do Governo para pedir socorro a um dos credores, relativamente á impontualidade apenas, na remessa da insignificante amortização de 8 milhões de libras, mais ou menos, ou a média de 500000 contos de reis.

 

A produção do anônimo é digna de análise, pois trata-se de um artigo de 1935 e já tínhamos olhos observadores, críticos, sobre a situação sócio-econômico do país, como os considerados grandes analistas críticos do sul brasileiro.

 Apesar de ser um jornal com poucas páginas Nossos Dias – Artes, Letras e Factos é um jornal repleto de propagandas comerciais visando elevar o nível e a produção do comércio e deixando os leitores bem informados dos acontecimentos locais a fim de que se mantivessem em circulação e conseguissem lucros. Neste jornal de onze páginas vejamos, então, uma curiosa propaganda na página seis:

 

Ladrão intelligente:

Boa foram de adquirir artigos finos sem gastar um nickel

PENETRANDO OCCULTAMENTE NA

 

 LOJA CARVALHO

DE- JOSÉ MARTINS CARVALHO

Escolhera do Chapéo mais fino ao Calçado de luxo; Palm Beach Elegante ao Relogio Garantido; do Crep Chic ao Annel de Brilhante, tudo dentro de 2 horas e com mais 2 horas fôra fisgado.

 

– DE FACTO FOI UM SCROC DECENTE

 

Existe, hoje, na cidade de Alagoinhas um colégio denominado Brasilino Viegas. Em 1935 as obras desse colégio ainda estavam por acabar. Olha a importância desse jornal para os dias atuais. A maioria da população alagoinhense desconhece tal fato. Sabe que o colégio existe pois se encontra até hoje em funcionamento, porém muitos desconhecem fatos da sua construção. Na página de número cinco Nossos Dias publica uma matéria relatando tal fato: deixa os seus leitores a par da decisão do Diretor da Instrução Pública determinando que a Escola Satyro Dias funcione no segundo turno no prédio onde estaria instalada a Escola José Olympio, até que se concluíssem as obras do Grupo Escolar Brasilino Viegas. Hoje tal colégio funciona nos três turnos do Ensino Fundamental. Nossos Dias apóia e aplaude tal decisão, pois a casa em que funcionava o Colégio Satyro Dias não era satisfatória quanto às exigências pedagógicas e higiênicas. Assim escreve:

 

...para se zelar do aproveitamento e mesmo pela saúde das nossas creanças, era mister que assim se procedesse afim de se atingir a alta finalidade do ensino.

 

E assim agia Nossos Diassempre louvando e apoiando as grandes decisões, desde quando beneficiassem a população alagoienhense. Mas, mesmo mediante a grande atuação desse jornal, as matérias não eram suficientes no sentido de provocação de discussões de quaisquer natureza, ou seja: os artigos primavam pela natureza informativa, aliás uma das formas de expressão cultural de um povo, de um periódico. A este respeito, observemos o que nos diz Jerusa Pires Ferreira (“Cultura é memória” 1994, p. 116-117):

 

Ao abordar cultura como informação, ele nos deixa passar por algumas idéias vivas, como por exemplo a de que a cultura é o mecanismo complexo e dúctil da consciência e que o âmbito da cultura é o teatro de uma batalha ininterrupta de tênues desencontros e conflitos de toda ordem, lutando-se pelo monopólio da informação”.

 

 A produção literária alagoinhense estava sempre presente nas páginas do jornal, o que fazia jus ao seu nome: Nossos Dias – Artes, Letras e Factos. E artes e letras é o que não falta nas páginas do periódico, pois Alcindo de Camargo, Maria Feijó, Pinto de Aguiar, Zildinha Moreira e A. Rocha foram as célebres personalidades da época, e até atuais, que embelezaram e representaram as artes e letras alagoinhenses.

Alcindo de Camargo foi um grande colaborador de Nossos Dias. Professor, jornalista e escritor, foi um homem que, apesar das perseguições políticas, e não nascer na Bahia, realizou grandes trabalhos na cidade de Alagoinhas. O seu trabalho intelectual estava sempre voltado para o desenvolvimento das discussões político-partidárias. E assim sendo, não fora compreendido, pois- para o cuiabano- os políticos locais só visavam o lado financeiro. E, em assim sendo, a intelectualidade não traz dinheiro para o bolso da ganância política. Essa é a construção perpassada da identidade cultural brasileira: só gostamos daquilo que dá lucro imediato. E, com a arte o lucro só vem a longo prazo, pois se traduz no campo das idéias. Mesmo com todos os obstáculos Alcindo de Camargo não se intimidou. Em 1932 fundou o Curso Normal e o Curso Fundamental, em 1936 e 1940 diplomou estudantes de tais cursos e oficializou o Curso Ginasial. Fora um homem muito querido pelos seus alunos, pois apesar de estar afastado das suas tarefas devido aos problemas de saúde estes foram buscá-lo para fundar o curso Barão do Rio Branco onde lecionou línguas, Matemática e preparou turmas para vestibulares. Alcindo foi um homem como poucos. Segundo os dados pesquisados até aqui, fora um intelectual honesto e preocupado com o sistema educacional do país. Através do seu reconhecimento e valor e por causa das suas publicações ocupou a cadeira 13 da Academia Matogrossense. Como escritor, produziu dois romances: Teia de Prometeu (este jornal apresenta um capítulo em folhetim do romance Teia de Prometeu) e Esposa de Martir. Foram poucas suas obras ficcionais, mas são dignas de serem “ressuscitadas” e analisadas.

Outra grande figura da cultura alagoinhense chamava-se Pinto de Aguiar que fora também um grande contribuinte para que as páginas deNossos Dias fossem ainda mais ilustradas com tanta efervescência. Manuel Pinto de Aguiar fora deputado eleito pela Constituinte Baiana que honrou com sua competência e honestidade. Contemporaneamente existe em Alagoinhas um conjunto de moradores denominado Conjunto Pinto de Aguiar.

Maria Feijó é outro nome importante da história cultural alagoinhense. A escritora Maria Feijó honrou aos leitores de Nossos Dias com o texto “ Você” enchendo os olhos e a imaginação dos apreciadores do periódico com o romantismo representado no texto que se refere a uma “moreninha côr de jambo” (...) “que vem desabrochando no frescor das suas 17 primaveras”. Maria Feijó é objeto de pesquisa da graduanda Daniela Brandão Gomes.

Seguindo a mesma linha de Maria Feijó encontra-se Zildinha Moreira, outra escritora da terra que também deu sua contribuição para que Nossos Dias se tornasse um marco cultural do município tendo uma repercussão marcante na construção da literatura alagoinhense e baiana. Com o seu belo e sucinto conto- que mais parece um depoimento- “Reminiscência” embelezou o jornal com romantismo e musicalidade que só deu prazer aos olhos e ouvidos dos leitores: Esquecer, sim. O esquecimento é o bálsamo que suavisa os sofrimentos de um coração dorido.

 “Anseios” é o poema da autoria de A.Rocha onde o eu-poético traduz seu sentimento num misto de dor e ansiedade pela ausência da amada mesmo confiando no seu amor. Mais uma vez a mulher é representada como romântica, embora o desejo perpasse o texto como algo consumado. Afinal, já estamos no ano de 1935...

 

Tardas tanto!...

Não sabes talvez que estou sosinho,

gelado e só sem a tua voz

e a carícia febril do teu carinho?

 

Eu sei que vens,

que és minha meu amor,

bella, meiga e pura!...

Mas a tua ausencia

me traz a ansiedade

em crótolos de dor.

 

Não demores mais!...

Quero-te junto a mim

fremindo de desejo,

sendo a musa dos meus versos,

e, escrevendo um poema

com a tinta do meu beijo!...

 

Alagoinhas, 26/2/935.

 

Poemas, prosas e crônicas, misturam-se a triviais notas mundanas, relatos de carnaval do ano focalizada, artigos informativos, ensaios, teatro amador. Este último assunto não poderia faltar nas páginas de Nossos Dias pois constitui-se num das referências mais significativas do processo de construção da identidade nacional- a princípio necessário e coerente nesta trajetória histórica –, e depois da identidade cultural considerando-se o avanço dos debates e o advento dos Estudos Culturais. Na última página o jornal dedica-se a falar sobre uma companhia teatral que na época fez o maior sucesso com suas representações:

 

DA RIBALTA

UMA VICTORIA DE “NOSSOS DIAS”

SUBIU À SCENA “DEUS LHE PAGUE”

“DIVINO PERFUME” EM BENEFÍCIO DA CADEIA NOVA

 

Os amadores do Theatro Alagoinhense ouviram o apello de “Nossos Dias” e acordando do letargo em que se achavam, fundaram o Grupo Theatral de Guarda Nova representando a colossal peça de Joracy Camargo, “Deus Lhe Pague”.

*

Ao que fomos informados, podemos assegurar que por todo o mez de Março o G. T. G. N. representará “O Divino Perfume” de Renato Vianna, em benefício da construção do Quartel e Cadeias.

*

“Nossos Dias” continuará incentivando o theatro local.

 

 

Nossos Diasconsidera-se vitorioso pois foi a partir dos seus apelos que o grupo teatral resolveu encenar. Os amadores do Teatro Alagoinhense ouvindo esse apelo resolveram representar uma peça importantíssima de Joracy Camargo, “Deus lhe Pague”. O jornal traduz esse fato dizendo ser uma ousadia dos moços do teatro por escolherem uma peça de representação complicada. Segundo o jornal eles realizaram o que nunca se tinha feito em Alagoinhas: transformação rápida de cenário lutando com dificuldades extraordinárias, principalmente pelo fato da Caixa do Theatro não ter altura suficiente. O espetáculo beneficente aconteceu em uma casa cheia, apesar das falhas, porém pela extensão do sacrifício, foram perdoadas. Ao longo da matéria surgem os nomes dos atores e atrizes ao lado de seus respectivos personagens. Observemos que a manchete se refere a dois espetáculos: o segundo diz respeito a peça “Divino Perfume” representada pelo mesmo grupo e em benefício da construção do Quartel e Cadeias. Esclarece o texto que a peça aconteceu durante todo o mês de março.

 Num misto de textos que ilustram uma época e que merecem olhares contemporâneos a fim de que analisemos e discutamos a atuação alagoinhense no processo de construção da identidade nacional, Nossos Dias – Artes, Letras e Factosesteve sempre presente apoiando e incentivando o que sempre está presente na memória de um povo: as letras e as artes. Trata-se de um jornal digno de ser estudado e visibilizado pelas imagens construídas há mais de meio século e que trazem à tona informações preciosas a respeito das gentes e das terras alagoinhenses.